quarta-feira, outubro 30, 2024

auto-retrato




Para quem fecha a janela, eu sou a fresta
Para quem esquece o segredo, eu sou o cofre
Para quem quer ficar em casa, sou a festa
Sou o medo, sou o medo , para quem sofre
Para quem faz planos, tempestade
Para quem guia depressa, sou a lomba
Para quem quer sossego, sociedade
Mas para quem quer paz, eu sou a bomba.

Mas se tu tens calor, eu sou piscina
Água fresca, ventoínha, sou menina


Para quem busca Deus, sou uma santa
Para quem compra prazer, a gaivia
Sou a tua vida, para quem tudo aceita
Sou a língua estrangeira, para quem lê
Para quem quer privacidade, sou a Caras
Para quem vai ao cinema, sou o Expresso
O sinal vermelho, quando tu não páras
Para quem vai de férias, sou o regresso




Mas se tu tens pavor, sou quem te anima
Luz acesa que ilumina, sou menina


Para quem sobe ao palco, sou uma branca
Para quem sobe ao altar, sou uma mentira
Para quem quer liberdade, sou uma tranca
Para quem quer ser casto, pomba gira
Para quem usa dopping, sou cansaço
Para quem quer descanso, má notícia
Para quem só dá a mão, eu dou o braço
Para quem faz de conta, sou malícia



Mas se tens uma dor, sou Aspirina
Água fresca, vitamina, sou menina










Luz Acesa
Letra:
Tiago Torres da Silva
Voz: Pilar Homem de Mello

[Fotos de Amora Silvestre]



Distância

Quem me dera ver-te, outra vez, encostado à chaminé da lareira, onde tantas vezes escutámos o som suave do crepitar da madeira. 

Tu, desse lado, olhavas-me, ainda inseguro. Nunca perdeste a compostura, nem nesses momentos tardios do dia, em que, de garrafa na mão me perguntavas:

- Queres um pouco?

Tímido, eu sei. Disfarçavas a timidez por detrás dessa postura feita de pedra. Ao longe. Do outro lado da lareira.

Agora, sinto a tua falta. Dessa distância que agora desejo. Desse porte composto, inseguro.

Queria tanto ter-te aqui.
Sim, estou à lareira. 
Sim, é fim de tarde. Mais uma vez.

(Publicado originalmente a 11 de Fevereiro de 2006)

o amor louco

Não acredito no amor louco; melhor, não me faz sentido, nesta fase da minha vida unir a palavra "amor" a "louco".
Está no raciocínio colectivo, no inconsciente colectivo, isto de o amor ser louco, de ter de se sofrer porque se ama, ou que o amor "certo" é impossível.
É a literatura, são os argumentos dos filmes, tudo o que nos rodeia nos empurra para isto.
E a mim não me faz sentido nenhum que o amor seja "louco".

Faz-me sentido a paixão tresloucada, desvairada, louca, sim.
Faz-me sentido a obsessão - alguém que acha que ama outra pessoa que a maltrata (seja física, seja psicologicamente). Neste caso, a pessoa - habitualmente e não generalizando - não se pergunta o porquê desta obsessão ou o porquê de se deixar maltratar.
Mas, não é lógico para mim que estas sejam relações humanas de amor. Têm outros nomes desde paixões, atracções, obsessões.

O amor é confiante, tranquilo, retribuído, dialogante.
Parece entediante esta perspectiva? Parece aborrecido um relacionamento em que o sentir seja tranquilo e confiante? Então é caso para ponderar seriamente, se o que queremos é amor ou simplesmente paixão, saciar a atracção. É que não faz mal nenhum que se sinta paixão, uma atracção louca por uma pessoa, que se queira saciar esse desejo intenso. Mas... daí até ao amor, vai um percurso, um trajecto.
Uma paixão, uma atracção não têm de ir dar necessariamente ao amor.
E repito que não acho nisso mal nenhum.
O que falta é o entendimento interior do que se pretende no momento: quero paixão, quero picos de adrenalina que me levem ao topo, quero discutir, provocar conflitos, tudo para que a minha vida seja interessante. Tudo bem. Mas não concordo que se chame a isso amor ou "forma de amar". Tem outros nomes. E os nomes, as palavras têm um peso, uma conotação.

Amor não tem a ver com as histórias dilacerantes de Shakespeare, ou com D. Quixote de la Mancha e a sua Dulcineia, ou com aquele sofrimento atroz das histórias ditas "de amor" que fazem parte das nossas vidas, desde que nos lembramos.

Um relacionamento baseado no amor pode ter dor (mas não sofrimento), um relacionamento de amor não é sempre desenhado como uma linha recta entediante. Mas maltratar quem se ama? Não, isso não é amor. E há tantas formas de maltratar alguém... então conhecendo bem a pessoa, é só usar estratégias emocionais manipulativas. É de facto simples, e mais habitual do que pensamos; muitas vezes insconsciente.
Tudo bem.

Cada vez que oiço dizer "amor louco", algo não bate certo, não tem lógica, não me faz sentido.

(Publicado originalmente a 27 de Abril de 2006)

Músicas de uma Vida IV

Ah! Shaddapa you face!! :)) Lembram-se disto?

(Publicado originalmente a 26 de Dezembro de 2008)



A frase do dia...

"Ser derrotado é frequentemente somente uma condição temporária. Desistir é o que a torna permanente."

Marilyn Vos Savant

(parece que esta senhora norte-americana tem um QI... que vai lá vai...)

Pois discordo completamente desta frase.
Eu e o meu mais baixo QI (ainda não medi devidamente o QE, que é o que realmente interessa), não concordo mesmo nada com esta frase.

Tem a ver com a palavra "desistir".
Desistir não significa ser derrotado, de todo.
Bom, esta é uma mera opinião pessoal, claro. Mas, "desistir" está associado a um tipo de luta ou competição, pelo menos para mim, está.
Na vida, não vale a pena, nem lutar, nem competir. Somos como somos, fazemos o melhor que podemos. Lutar para quê?

Persistir, sim. Seguir um sonho também. Lutar? Não me parece.
Torna tudo muito mais difícil.

Portanto, aquilo a que chamam "desistir", significa para mim uma tomada de consciência de que se pode tomar outro caminho e largar aquele. É uma opção, não uma desistência.

Ser derrotado, bom, lá voltamos à competição. Andamos a competir com quem?
São precisas, pelo menos duas pessoas para competir. Se uma delas sorrir e continuar, sem desejo de competição, nunca haverá derrota, nem desistência.

Porque isto de se estar vivo não é uma luta.
É simplesmente deixarmo-nos ir na corrente. Todos sabemos, se lutarmos contra a corrente, na água, são muito maiores as probabilidades de nos afundarmos...

(Texto publicado originalmente a 19 de Fevereiro de 2009)

Ena ena!!

Não há nada de estranho nesta campanha publicitária de uma seguradora??



Uma cara sorridente com o carro todo espatifado!! Bom, neste momento, não há nada que mais me alegrasse! Ter o meu carro, assim, todo partido!! Que satisfação!!

Quando todos nós que conduzimos, de alguma forma, já passámos por experiências deste tipo - acidentes menores, retrovisores partidos, carro amolgado, riscos no carro e quejandos - todos nós, dizia, sabemos que não há nada que alegre tanto o nosso dia, como um belo de um acidentezito, ou encontrar ... enfim... o nosso carro todo diferente, quando nos levantamos. Diferente de como o deixámos na noite anterior.

Não entendo esta campanha. É sórdida, masoquista e posso mesmo aventurar-me a dizer, enganosa.
Enquanto que, em certos países, se usam imagens de acidentes e automóveis todos destruídos, para promover o cuidado na estrada e a condução prudente, eis que aparece esta campanha publicitária que, na televisão, até usa a música de Bobby McFerrin "Don't worry, be happy!. Acho que foi mesmo para este tipo de situações que Bobby McFerrin escreveu a música.

Não posso evitar este tom sarcástico, de tão ridícula que é esta coisa.
Também não me apetece muito mostrar o resto da fotografia, a parte de baixo, que descreve sumariamente o que a Seguradora faz pelas pessoas que são vítimas (ou causadoras) de acidentes. Não mostro, porque nada diz de útil, ou seja, não refere se estamos a falar de um seguro contra terceiros, um seguro contra todos e por aí fora.

Simplesmente ridícula esta campanha.
Aliás, até era engraçado promover a Seguradora num acidente a sério, com as pessoas no verdadeiro estado de espírito, quando se vêem envolvidas num acidente.
A angústia, a espera para que chegue a Polícia ou o reboque (porque um carro danificado desta maneira, garanto, não sai dali sem ser rebocado) , lidar com todas as pessoas envolvidas no acidente em si, lidar com os "orçamentistas" - os que param para ver, os que dão opiniões e tentam inflamar a a situação, os que literalmente ajudam ainda mais a perturbação do momento.

Com tudo isto, digam lá... a sério... ficamos mesmo com este sorriso na cara?? Seja lá qual for a Seguradora?

(Texto publicado originalmente a 24 de Junho de 2010)

Viver e crescer ...

...onde eu vivi e cresci é um bom exemplo de como essas vivências nos afectam ou limitam.

Diga-se que esse tipo de experiências não têm mais poder do que aquele que lhe quisermos dar. Por isso, só nos limitam porque nós permitimos.

Ora vejamos: nasci e cresci no meio de pedra granítica, numa cidade "pequena", limitada e feia. Assim a vejo. Na minha infância, tudo à minha volta era estratificado socialmente - as pessoas valiam pelo estatuto social que tinham e não pelas suas qualidades humanas.

Basta dar este exemplo: duas das minhas vizinhas e "amigas" de infância eram filhas de um casal socialmente considerado de "alto" estatuto social - portanto, uma família endinheirada (porém com uma capacidade intelectual muito reduzida).

Crescendo, a vida leva-nos por aí fora, até à idade adulta.

Dessas duas filhas, a mais nova ficou na cidade e casou. Não conseguia engravidar, tentou anos e anos, com tratamentos de fertilidade de permeio. Não engravidava. Claro que os mais ponderados sugeriam-lhe a adopção. Mas a mãe dela não queria que a filha adoptasse: a fortuna da família iria para uma pessoa "de fora"!!! Portanto, esta rapariga, estava em luta consigo mesma, com os pais, com tudo. Queria engravidar, ponto! Nenhum tratamento de fertilidade que o dinheiro da família podia comprar, lhe dava o que ela mais queria.

Enfim, claro que muitos tratamentos depois, toda a família desistiu. Muito bem, vamos para a adopção! Tudo preparado para adoptar um menino que já vinha de outro lar e estava em idade pré-escolar. Foi adoptado.

Certamente que a continuação desta história se adivinha. Com um filho adoptado e sem a ansiedade de "querer engravidar" à força toda, sem qualquer tratamento de fertilidade, finalmente, eis que esta rapariga engravida!!

Creio que já contei isto antes, porque me chocou tanto!!! Ainda me choca e vai sempre ficar na minha memória.
Assim que ela engravida, o casal, aconselhado pelos pais dela (nomeadamente a mãe), decide "devolver" aquele menino à procedência!!! Sem se despedir dele, com a maior crueldade possível, este menino foi preparado de manhã para ir para a Pré- Escola, como todos os dias, com a mochila do almoço e do lanche e uma muda de roupa e por ali ficou!
Quem o foi buscar à tarde, foi a assistente social que tratava do caso dele. E ele volta para o "sistema" de adopção. O casal, nem se despediu dele.

Dói-me tanto esta situação!! Este menino, que não tem responsabilidade nenhuma sobre isto, que viveu com este "casal", nunca foi filho, foi um penso rápido! Como se pudéssemos descartar seres humanos, crianças!!

Que me diz isto, a mim, que sempre fui tão crítica em relação à cidade em que nasci? Que isto pode acontecer em todas as cidades? Pode. Mas aconteceu na minha, com pessoas que me fizeram sentir na pele, enquanto criança, que o mundo girava à volta dos tostões e não das qualidades e defeitos que todos temos.

Sinto-me mal porque, se for honesta comigo mesma, sou cruel. Sei que a vida vai e volta e nem vai ser preciso eu ir lá, pregar-lhes umas lambadas bem dadas. A vida vai encarregar-se disso.

Não há dinheiro que pague a minha vida, a minha família, o amor que sinto dentro de mim e a vontade com que fiquei de ser eu a adoptar aquele menino.

A suposta "avó" - a tal que não queria que a fortuna da família fosse para uma pessoa "de fora" - é a mesma pessoa que a minha mãe convidou uma vez para almoçar no restaurante chinês e que respondeu:

- Eu?? Credo, ouvi dizer que eles comem cães e gatos e sapos. Nem pensar em ir a um sítio desses!!!

De que lhe vale tanta fortuna, se esta mulher é tão miserável?? Nenhum dinheiro do mundo a vai tornar um ser humano decente. Nem ela, nem as filhas! Lamentavelmente, a filha mais velha teve um filho portador de deficiência.
Não me regozijo com isso. Abano a cabeça e tenho esperança que esta criança seja o motor de arranque para que esta família se torne menos cruel, mais humana, mais sensível.

De qualquer forma, duvido. Duvido muito!

(Texto publicado originalmente a 1 de Junho de 2020)

Ai...

Ai ...pode
Ai... fone
Ai... pede

Resumindo, ai ai ai!!

Isto dos Ai Podes e Ai Pedes é uma moda cara que se farta!
Montes de colegas meus encantados com os seus ai fones, touch screen e assim. E eu... ai fone, é que nem vê-lo, quanto mais ter um!

Ora bem, se virmos bem o mercado dos telemóveis, actualmente, há vários que funcionam com o sistema android e que são muitíssimo melhores que os "ai".
Mas os ai fones, são ai fones, pá! Isto é uma maravilha!

E eu que não vejo a maravilha da coisa!! Aliás, até acho graça quando o pessoal está na mesa do café e pousa solenemente o seu ai fone mesmo ao lado do café. E eu com o meu "simples" Nokia - que não troco por nada!!

Pronto! Já vi que isto é uma moda. Mas não vale realmente a pena, são caros e não são nada de especial. Explico:

- os ai fones têm um sistema operativo proprietário (IOS) - ou seja da Apple. E nada mais ali entra.
- nada de flashmovies nem java; agora ... bem, lá permitem que vejamos videos do Youtube. Aí uns bons 50% da internet utiliza java e os ai... nada de java.
- se for preciso fazer download ou upload de outras aplicações que não são da Apple... zip, nada!
- há quem fale até em "jail break"... tipo "crackar" o telefone, para permitir estes acessos que são vedados à partida.
- para aceder à net, o browser é da Apple - o Safari.
- para enviar MMS, só tendo uma versão recente, a partir de 2009; a versão 3.0.
- em 2008, a Apple lançou o SDK (Software Development Kit), para quem quiser construir aplicações para o seu próprio ai fone. Ora, o download disto é grátis e qualquer utente pode desenvolver aplicações nativas e testá-las num simulador. Mas..... mas.... para o utente poder instalar essas aplicações no seu próprio ai fone, tem de pagar à Apple uma ... digamos... taxa. Pimba! Paga mais!

E assim estamos, no universo dos chamados "smartphones"!

A LG, a Samsung, a Nokia e a Sony estão com smart fones (estes sim, são realmente smart) fabulosos, com touch screen (para quem gosta, eu não gosto), sistema android etc e tal e ... ainda assim, tanta gente vai para a Apple!

Eu não vou!
Gostos, enfim... ai!

(Texto publicado originalmente a 4 de Junho de 2011)

Trágico, realmente!

Realmente, tudo isto é uma tragédia!
Não só o número de acidentes, como a ausência das patrulhas da GNR!! E mais, o que é realmente trágico é que, se as patrulhas andam na estrada, é uma chatice porque as patrulhas andam na estrada. Se não andam, é porque não andam.

E assim, é um infindável número de queixas constantes. Lá reza o ditado: preso por ter cão...

Mas o cabeçalho desta notícia é outra tragédia.
"Falta de patrulhamento resulta em excessos".

Como assim?
Utópica, como sempre, lá vou eu argumentar que não é a falta de patrulhamento que provoca os excessos na estrada. São os condutores!
A "falta de patrulhamento" é algo que não existe, não é sujeito. Quem age são as pessoas. E são os condutores que terão de ser responsabilizados pela sua condução!

Desde que me lembro que nesta altura de férias é sempre a mesma coisa. Já não é notícia, senhores do Correio da Manhã! Irra, que até aborrece!

Sou mesmo utópica, porque realmente acredito que eu própria ajo exactamente da mesma maneira, quer haja polícia por perto ou não. Na estrada, a mesma coisa.

Neste tipo de situações, vê-se quão adolescentes somos! Tudo na fase da puberdade, com as hormonas aos saltos, a conduzir como se nos tivesse saído a carta na Farinha Amparo!

Trágico, realmente!
Se os cidadãos não se conseguem reger pelo seu próprio código de conduta, de respeito pelos outros e pela vida humana, claro que a culpa é da "falta de patrulhamento"! Será que precisamos também da polícia de costumes, que haja mais decretos-lei que nos digam o que dizer e o que fazer a cada minuto da nossa vida?

Isto não é notícia, nem merece cabeçalho! Aumento de acidentes no verão? Não é notícia. Falta de patrulhamento? Também não é notícia. Não deveria ser notícia. Num mundo ideal, cada cidadão pensa por si, responsabiliza-se pelos seus actos.

Normalmente, os media são um bom exemplo do pensamento colectivo. Tendo em conta que o CM tem um público alvo de classes C e D, atrevo-me a dizer que, infelizmente, a maioria dessas pessoas precisa mesmo de patrulhamento.
Trágico!

(Texto republicado de 2018)

terça-feira, setembro 10, 2024

A Pedagogia do Erro

Ora, erros ortográficos, todos nós cometemos. 
Ninguém se safa a um erro, a uma "gaffe", a uma frase mal pontuada, aqui e ali. Quando se trata de ensinar a escrever correctamente, há técnicas próprias para isso. 
Vejamos, por exemplo, uma pequena rubrica que passa todas as manhãs na RTP1 - Bom Português. 

A ideia é boa, mas é mal executada, em termos de conseguir, de facto, que as pessoas escrevam melhor.

 Aparecem sempre no ecrã duas hipóteses de resposta para escrever correctamente uma palavra. Por exemplo:

Como se escreve correctamente?

Alcachofra ou 
Alcaxofra 

A repórter da RTP1 vai para a rua e faz esta pergunta aos transeuntes, apresentando as duas respostas. Qual delas é a correcta? 

Chegando ao final da rubrica, aparece o mesmo ecrã, com as duas palavras. 
A hipótese correcta apresenta um a bola verde à frente e a errada tem uma bola vermelha, sobre a qual aparecem dois riscos, em cruz. 
Nada eficaz, em termos de ensinar. 
Quem pudesse ter dúvidas sobre a forma como se escreve "alcachofra", retinha na mente as duas maneiras e não apenas a maneira correcta. 
Porque as duas aparecem de novo no ecrã. 

A nossa mente não liga patavina à bolinha verde ou à bolinha vermelha. Regista, sim, o que vê: estão lá escritas as duas opções. 

Conhecendo o funcionamento da mente, em termos de imagens visuais, isto é pedagogia básica: um erro nunca ( NUNCA) se repete. 
Para que esta pequena rubrica seja eficaz, é fundamental que, na segunda vez em que as duas palavras aparecem na tv, serja apenas mostrada a correcta; sem bolas verdes ou vermelhas.

 Deveria aparecer apenas uma - alcachofra. 

O mesmo se aplica a tudo o que se quer corrigir ou implementar. 
Se pretendemos que uma pessoa diga correctamente "Gosto da praia e do mar", é isto que queremos que ela leia; é isto que escrevemos. 

Se não queremos que a pessoa diga "Acho que gosto da praia e do mar", nem sequer devemos escrever em lado algum. Muito menos escrever a frase e riscá-la por cima. Simplemente, escrevemos apenas o que é para ser dito.
 Quem realmente quer ensinar ou promover um tipo de linguagem diferente, deve conhecer bem as técnicas usadas para que a mente receba correctamente o que pretendemos transmitir. Basicamente, o que não é para ser dito, não se escreve. 
E pronto. 
Um erro não se repete, não se reescreve. Apaga-se. 
Fica apenas a forma correcta de escrever. A RTP deveria corrigir isto.

Bem estar e estar bem

Ou é moda, ou não sei bem o que se passa.
Agora, tudo e todos falam e escrevem sobre o "bem-estar"; ele é revistas, ele é debates; ele é "medicinas". Enfim. O que importa é o "bem-estar".

Isto veio a propósito de ter lido algures que um cardiologista de uma universidade de medicina, algures no mundo, ter chegado à conclusão que pensar de forma positiva faz bem ao coração. (!!!)

Ora, eu fui criada numa cidade pequena, em que tudo chega mais tarde, em que as modas só aparecem meses depois de serem "modas", etc.
Os meus pais, principalmente a minha mãe, gostava muito da naturologia e de um médico em particular - o Dr. Fernando Ascenção que, ainda hoje está referido na parede de uma Escola que ensina técnicas de Naturologia, em Lisboa. A memória, quando falha, é uma chatice, não me lembro do nome da Escola. Portanto, estamos a falar de 1970s; por aí. Nos anos 80, eu tratei uma anemia com o Dr. Fernando Ascenção, também. Mudei comportamentos alimentares, e tomei, claro, suplementos para fortalecer o sangue.

Tudo remonta, em Portugal a um médico italiano, radicado por cá, mais concretamente em Paço de Arcos - Indíveri Colucci. A ele se devem muitos dos conhecimentos de naturopatia - ou seja, o tratamento total do corpo. Não tratar um sinal ou sintoma; tratar o que está a causar esse sinal ou sintoma.
Cresci a ouvir o nome de Indiveri Colucci e a ler a revista que ele publicava e que nos chegava via CTT.

Portanto, naturopatia, naturologia e afins, não são modas recentes. Este tipo de estrutura de tratamentos vem de mais longe, assim como a homeopatia. A Homeopatia apareceu na Alemanha, em 1796, através do médico Samuel Hahnemann, que viveu entre 1755 até 1843.

O que me incomoda, agora, é que toda a gente quer o famoso "bem-estar", sem perceber que todo o conceito social mudou. Com ele, mudaram-se os nossos hábitos mais comuns, como ir a pé de casa para o emprego (agora, pedem-nos para caminhar mais- pudera!); semear os produtos que consumimos, no nosso próprio quintal. Coisas simples destas que foram caindo no esquecimento. Foi a quebra de hábitos de vida, uma mudança radical.
Não admira, portanto, que hoje haja mais maleitas que derivam, simplesmente, de estarmos mais parados ou, por oposição, andarmos num ritmo frenético.

Não há meio-termo, equilíbrio. Aceleramos, logo de manhã, para chegar ao emprego a tempo e horas; quando chegamos a casa ao final do dia, paramos devido ao desgaste - seja emocional ou físico - a que nos sujeitámos durante o dia. Depois, comemos o que nos impingem. Não comemos os alimentos que nós próprios semeamos. Os meus avós comiam o que semeavam e eu também, quando era criança.

Bebia leite de vaca, acabado de ordenhar e de cabra também; as minhas férias eram passadas na aldeia da minha avó, onde as mulheres se juntavam para fazer o queijo e nós depois bebíamos aquilo que se chama o soro ( a aguadilha que fica depois de se fazer o queijo).

Bom, de repente, tudo o que se denomina "terapias alternativas" começou a ficar na moda.
Não são alternativas, são complementares. A medicina convencional pode aprender com os antigos, pode aprender a tratar todo o ser humano - desde as emoções às maleitas físicas.

Ler, então, que um determinado cardiologista chegou à conclusão que pensar positivo faz bem ao coração... é mais válido do que o que o Dr Indiveri Colucci vinha dizendo há quase 100 anos?

Claro que precisamos de nos certificar da formação daqueles a que recorremos. Não questionamos o nosso médico de família, porque fez o curso "normal" de medicina. Mas, porque não?

Há dezenas de anos que há homens e mulheres a procurar tratar-nos de forma mais natural. Ou seja, uma alimentação mais completa, uma fisicalidade mais activa - que não implica passar horas num ginásio qualquer, basta caminhar a pé para o emprego.

Porque é que é mais credível que um médico - seja qual for a especialidade - nos diga que pensarmos positivamente faz bem ao coração? E depois, com o aparecimento dois chamados "gurus de auto-ajuda", que dizem exactamente a mesma coisa, estes já são todos uma charlatanice pegada, mas o Dr Cardiologista não é - e só agora chegou à conclusão que pensar positivamente faz bem ao coração?

E bom senso, não há? Qualquer pessoa, com um mínimo de bom senso, chega à mesma conclusão que um cardiologista que passou anos a estudar para ser médico.

Simples.
A minha mãe teve uma epicondilite - uma infecção num cotovelo, que a impedia de realizar o seu trabalho. Chamam às epicondilites "as doenças do tenistas", porque é frequente um tenista infectar os tendões do cotovelo, por razões óbvias. O médico de família, de imediato, disse, de forma peremptória: "a senhora vai fazer infiltrações. " A minha mãe informou-se: uma infiltração é a inserção de uma pequena cápsula no cotovelo que vai largando cortisona.

Só que a cortisona tem efeitos secundários desagradáveis (isto para ser suave). A minha mãe recusou fazer infiltrações. Consultou outro médico que lhe disse, de imediato : "a senhora não vai fazer nada disso; vai fazer fisioterapia e fortalecer esses músculos". Feliz da vida, a minha mãe não teve mais dores no cotovelo, desde que começou com a fisioterapia. Em caso de uma situação de recaída, em que há mais dores ou desconforto, regressa à fisioterapia e à hidroginástica.
Um pormenor - a minha mãe tem 71 anos. Faz cerca de 5 quilómetros todos os dias a pé (porque não tem carro); aos fins de semana faz dez quilómetros a pé. É membro do Clube de Montanhismo e sai frequentemente para caminhadas de dia inteiro.
Recordo, ela tem 71 anos.

Como estaria hoje, se vivesse de infiltrações de cortisona, se não se mexesse ( tem duas hérnias discais nas cervicais (pescoço) e não usa colar cervical, nem pensar!!! Mexe-se, move-se, caminha. Alimenta-se do que a terra lhe dá - deviam experimentar um chá de tília da árvore que cresce no nosso quintal!! Basicamente aquilo que sempre fizemos, antes de nos tornarmos acelerados para o emprego e parados quando chegamos a casa.

A formação dos nossos médicos deveria ser melhor, no seu todo. Felizmente, a minha médica particular é médica "médica", formada pela Faculdade de Medicina de Lisboa e tem a especialização em Homeopatia, feita em Londres. Claro! Não mudo de médica, enquanto ela me quiser tratar! E isto não é moda, é uma forma de vida!

Não quero minimizar a importância da medicina convencional. Gostaria, sim de a ver melhorada. A medicina convencional salvou-me a vida, há cerca de cinco anos. Mas não posso dizer que foi só a medicina convencional, porque além dos tratamentos "convencionais " que fiz, estava a ser tratada também pela minha médica homeopata, estava a beber o charope de aloé vera, feito pelos Monges na zona de Benfica, fiz bioressonância e psicoterapia. Tratar o todo, lidar com tudo.

Que não seja moda, que seja consciente, uma opção de vida. Aliás, uma forma de viver.

sexta-feira, novembro 18, 2022

... não sou capaz de ler isto...

"Inspirado pela minha breve visita à residência dos Bliss, propus-me, com uma ambição sem paralelo em mim antes ou desde então, conquistar a mão da mulher cuja voz, cabelo e pele pareciam ter imbuído todas as membranas do meu corpo e violado todos os limites da minha alma. Um tal estado, tenho por vezes pensado, deve ser semelhante a esse êxtaseque define a vida do místico religioso - a sensação do corpo repleto do espírito de Deus. Espero que não seja uma blasfémia fazer esta comparação, mas creio que nunca estive tão perto de um estado de graça como nas semanas e meses em que cortejei Etna Bliss, um estado de graça que se manifestava no meu discurso, nos meus gestos e num sorriso quase irreprimível.

 "Tudo o que ele sempre quis" de Anita Shreve 


 Irra!! Isto está na página 34 do livro e não passo daqui. Simplesmente, não consigo. Começo a olhar pela janela, a apreciar os pássaros, o sol, as nuvens. Tudo me parece tão mais interessante do que este livro. 
Em contrapartida, literalmente, "engoli "A Saga dos Otori" de Lian Hearn. 
São três livros, que retratam o Japão no período pré- Tokugawa. É uma história simples, que vai avançando ao longo da saga. Sem grandes "efeitos literários", Lian consegue mostrar o cenário, construir as personagens, dar-lhes vida, sentimentos. Tudo. 

Portanto, em dois dias li estes três livros e ando há uma semana a tentar passar da página 34 do livro de Anita Shreve. Impossível. 
Já percebi que quando não consigo ler um livro e fico emperrada numa página, não vale a pena forçar a leitura. Acho que sei o que me impede (interiormente) de continuar com Anita Shreve. 

Abomino quando se exacerbam sentimentos na escrita; abomino mesmo, é quase físico. Dá-me vómitos. 
Para melhorar a coisa, estão escritos na contracapa do livro de Anita Shreve os comentários do USA Today ["Viciante... Anita Shreve é magistral na forma como descreve o arrebatador impulso da paixão."]; do The Guardian [" Impossível de pousar".]; do Washigton Post ["Delicioso... Shreve no seu melhor".]; do Seattle Times ["Um estudo perspicaz sobre o desejo obsessivo... Um dos mais bem conseguidos romances da autora."] 

Pois, não... não é viciante. É perfeitamente possível de pousar (inclusivamente deixá-lo a apanhar pó ou inadvertidamente deixá-lo na mesa do café). Não é delicioso. Se é perspicaz no estudo sobre o desejo obsessivo ... isso é questionável. 

 Simplesmente não suporto este tipo de escrita, trabalhada e elaborada, em que as palavras parecem ter sido colocadas lá, ao acaso (quantas mais palavras , melhor!), para retratar o mundo insano de um homem (ele é a personagem principal e fala no discurso direto, em jeito de quem conta a sua história), que fica obsessivamente agarrado a uma mulher que vê num incêndio - assim começa o livro.

"Perdemos" é realmente a palavra, porque não me revejo nisto, perco-me mesmo na descrição dos sentimentos da personagem. Não acho interessante a forma como a autora descreve a maneira como ele olha para o colo da mulher, como se fixa nela de uma forma obsessiva, com muitas palavras, uma verborreia que me empanturra. 

Acho que me tornei numa leitora bulímica, com este livro. 
Empanturro-me e depois vomito tudo. 
Claro que já comecei a ler de novo várias vezes e outras tantas vomito as palavras a seguir. 
E por aqui me fico, pela página 34. Finito! 

Estou a fazer terapia para a minha bulimia de leitura. 
O livro vai para a prateleira... escondido, lá pra trás.

Questões de "linguística"

É muito importante a forma como falamos, o uso que damos à linguagem. 

Na língua Portuguesa existe o verbo "ser" que é muito mais complexo e elaborado do que as três letras que tem. 

 Certa vez, conheci uma mulher que se me apresentou com o nome completo. Ora vejamos, disse ela, estendendo-me a mão e com o nariz empinado: 

 - Sou (agora vou inventar o nome, que já não me lembro) Maria Luísa Godinho Silva e Cunha. Sou mulher do Dr. Silva e Cunha, que é cirurgião no Hospital X. 


 Bom, eu fiquei com o pêlo eriçado, como os gatos. 

 - Muito prazer. Eu sou a Dra. (pespeguei-lhe com o meu primeiro e último nome). Pode tratar-me por doutora. 

 E sorri-lhe. Como é que três letrinhas estão cheias de tanto, não é? 
Aquela mulher, é (lá está, o verbo ser) uma mulher. Porém, aquilo que ela "é", ela própria define como sendo "casada com" e é isto que ela é; portanto, o suposto estatuto social do marido. Certamente que estava habituada a usar a profissão do marido de forma intimidatória. Era óbvio que o dizia como forma de se impor, numa situação de impacto inicial. Ficou um bocado baralhada, quando lhe respondi da forma como o fiz. 

 Em Portugal, há alguns licenciados que não têm "título". Numa licenciatura de engenharia, é-se engenheiro; em arquitectura, é-se arquitecto. Os médicos são "doutores", mas também são "doutores" os advogados e, há que dizê-lo, também são "doutores" os Professores (com licenciatura de cinco anos). Portanto, esta coisa das licenciaturas é um bocado confusa. No meio académico, é claríssimo que se alguém é chamado de Professor, então essa pessoa tem um doutoramento - como é o caso do nosso PR - Professor Cavaco Silva. 

Portanto, academicamente acima de qualquer "doutor". Mas "ser" engenheiro, "ser" arquitecto, "ser" médico, "ser professor" não é o que somos. 
É o que fazemos. 
Depois, surge a outra questão; como é que dizemos "eu faço arquitectura"? Ou "eu faço advocacia"? Não soa nada bem. 

Hum... como se diria então... "eu faço... professorado?". 
Não, pois não? É talvez a única profissão em que se é, realmente. 
Sou professor significa - eu ensino. Mas isto são outros quinhentos! 

De qualquer forma, se desmontar o discurso introdutório daquela senhora, ficaria qualquer coisa como isto: 

 - Chamo-me Maria Luísa. O meu marido é médico. Sinto-me poderosa só porque casei com ele e faço questão de o dizer ao mundo. 

 Ahh!!!! Assim, sim. Eu ter-lhe -ia respondido apenas, "muito prazer, o meu nome é ...".

O homem voador e a vida complicada

Foi há umas semanas atrás que , no café da frente, estava a dar a TVI de manhã. 

 Entra o trânsito e passam a emissão para aquele senhor que anda de helicóptero, sabem? 
Pois, a TVI paga ( e não deve ser pouco) para ter o helicóptero a sobrevoar certas áreas da Grande Lisboa, nomeadamente o IC19 e a A5, durante a chamada "hora de ponta". 

 Dizia o homem voador que a manhã estava cinzenta, chuva miudinha a cair aqui e ali e, portanto, uma manhã ... muito complicada. Quanto ao trânsito, tudo tranquilo. 

 Hum??? Uma manhã cinzenta e chuva miudinha poderiam contribuir para uma manhã difícil no trânsito, o que, pelos vistos, não era o caso. 
Ora então, afinal, porque estava "complicada" aquela manhã? 
Por estar cinzenta e com uma chuvita a cair de vez em quando?? Se, afinal, estava tudo bem no trânsito, onde estava a complicação? 
Se todas as "complicações" que cada um de nós tem na vida fossem manhãs cinzentas e chuva miudinha, isto era um paraíso!! 

Um paraíso com nuvens, chuvita e tal, mas não vejo aqui complicação! 

 O que valeu, naquela manhã, foi a voz off, logo a seguir, do meu querido amigo Eduardo Pinto, que fez um belíssimo trabalho ao explicar como estava, de facto, o trânsito: em geral, sem grandes dificuldades. Sem dramatismos, o Eduardo fez um belíssimo trabalho só com a voz. 
Trezentas vezes melhor do que o senhor voador do helicóptero da TVI. 

 Diz-se que estamos em crise? Então, que tal a poisar o helicóptero (menos poluição para nós e mais poupança para a TVI) e realmente investir em pessoas como o Eduardo, que sabe bem o que é falar sobre o trânsito. 

Afinal, não é nada complicado, é simples!

sexta-feira, agosto 31, 2018

. sonhos desarrumados.

"Alguns têm na vida um grande sonho e faltam a esse sonho. 
Outros não têm na vida nenhum sonho, e faltam a esse também."

Bernardo Soares,  Livro do Desassossego




Lembro-me tão bem de devorar Bernardo Soares há muitos anos,  há cerca de vinte e cinco anos.  Este grande querido, o lado sempre depressivo de Pessoa. 

Quando uma pessoa se põe em arrumações,  desarruma-se a mente muitas vezes e, enfim, o processo real de "arrumar",  primeiro,  desarruma:

- Ena! Já nem me lembrava que tinha isto aqui!
Ou o mais famoso:
- Afinal era aqui que estava isto! - olhando para um engraxador de sapatos que, coitado, já nem graxa tem, sequinho, sequinho. 

E toca de ver o que é um mais um qualquer pedaço de papel, com uns números escritos e algumas palavras que  já nem associamos a nada.  E quase sem ver, lá vai o papel para a reciclagem (mentira, foi para o lixo mesmo, estou aqui armada em "amiga do ambiente"!) . 


É um processo moroso, convenhamos. Depois é mais um livro que não se resiste a folhear, ou mais um cd, eu sei lá, cadernos e cadernos de coisas escritas que já vêm de mil novecentos e carqueja!  
E claro, dei de caras com os meus dois volumes aqui do eterno desassossegado,  o Bernardo. 

Olhei para esta frase, desta coisa do sonho. 
Li, reli. 
Pausei, pensei. 

Cocei a cabeça e passei por um daqueles momentos tipo quando se entra na cozinha e não se sabe o que íamos lá fazer? Desses.  
E dei comigo a pairar.  
Que raio!  E eu que gostava tanto de ler o bom do Bernardo.  O que quer ele dizer com isto? 

Acabei deitada no chão, de barriga para o ar,  sem fazer literalmente nada, nem sequer estava a pensar - o que, para mim, é quase inédito!

Pois este foi um momento tão traumático, que disse para comigo:
- "Tão cedo, não me ponho a arrumar a casa."
E agora, depois de ler isto tudo, entendi! 
Afinal, que eu queria era mais uma desculpa para continuar a não arrumar a casa! 
E o Bernardo é que paga! 
Pode ser! 

Enquanto ele se desassossega ali na prateleira,  acho que vou descansar de tanto que arrumei ... perdão, desarrumei! 

segunda-feira, agosto 27, 2018

. sake .

Quando nos apetece um daqueles banhos, em que existimos só nós, o leve som da espuma que se desfaz devagarinho,  o vapor cinza claro que também se vai desfazendo, solta-se um Ah!  e entende-se o conceito de felicidade. É mesmo isto!

Aquecido previamente, o sake é a companhia, em chávena apropriada, para ir bebericando.
É um mundo sensorial, um mundo sensual, de sentidos - todos.
O temperatura da água, o cheiro dos sais - cheira a maresia e a Cabo da Roca.


O sabor morno do sake, que quase mais se adivinha. A visão do corpo entre a água e a espuma. E o som. Ah!

Estica-se o braço e traz-se a esponja, suave no contacto com a água e no contacto com a pele dos braços, das costas, ombros.
Bebe-se mais um golo de sake.

Os pés brincam com a espuma da água, no outro lado da banheira.
Levanta-se o corpo para afagar os pés, suavemente. A pedra-pomes mesmo ali à beira, pronta para suavizar os pedaços mais endurecidos do pé; primeiro do direito e depois do esquerdo.
E em rotações suaves, rodopia a pedra-pomes ao encontro da planta do pé, do calcanhar, e depois, mudando de pé.

- Tão suave esta pedra-pomes - pensei.  Costumam ser tão rugosas e esta parece estar tão de acordo com toda a suavidade do momento.

Os cantos da minha boca subiram num sorriso bonito,  feito de espuma,  de pés suaves e do sabor do sake.
E saí do banho, devagar, com a toalha abraçada ao corpo, e de sorriso leve.
Tinha acabado de perceber que estive a fazer o peeling dos meus pés, com a pedra-pomes nova, ainda dentro do plástico transparente!
O uso da pedra-pomes dentro do invólucro, parece ser diretamente proporcional à quantidade de sake que se bebe, num belo banho de espuma.

Ah! Que bem que soube!
Deixa-me lá levar o sake para a sala.

domingo, agosto 26, 2018

. olá, menina .

Bom, e assim, num fim de tarde na praia, se arranja auto-estima e uma felicidade de bolso; quando um homem passa por nós, na praia e diz:
- Olá, menina!

Claro que uma pessoa que já passa dos cinquenta pensa: ... olha que bonito "menina"... que lindo...
(NMT)

(Nota Muito Importante : o homem era um daqueles tipos que vendem pashminas na praia. Ai que felicidade! Não comprei a pashmina, mas ele chamou-me "menina"!)

terça-feira, outubro 26, 2010

Uma frase de passeio

De passeio, encontram-se coisas destas.


A frase parece bonita: "Faz tudo como se alguém te contemplasse" de Epicuro.

Fazer tudo como se alguém nos contemplasse, implica necessariamente que agimos de forma diferente quando alguém não nos contempla. Quando estamos sozinhos.

Portanto, agimos todos de forma diferente, quando ninguém está por perto.

Entendo perfeitamente que esta frase seja destinada, digamos, aos nossos comportamentos sociais. Mas, na nossa vida pessoal, se eu fizesse tudo como se alguém me contemplasse, não andava mal trajada em casa - de pijama, pantufas, despenteada; não deixava a cama por fazer, com os meus dois gatos a apanhar sol, sobre o edredão; não deixava a loiça por lavar, como deixo tantas vezes.

Afinal, porquê retirar-nos estes pequenos prazeres e libertinagens da individualidade?

Partindo sempre do pressuposto que as nossa acções não se destinam a prejudicar ninguém, mesmo quando alguém nos contempla - nos vê - e se nos apetece correr descalços sobre a relva de um parque qualquer; dançar, mesmo no meio da rua; gritar, espernear, rir e chorar, fazer sapateado?

Pronto, eu entendo a frase. Só que me apetece rabujar. Pois que contemplem.

quinta-feira, outubro 21, 2010

Uma "consulta" de Tarot...

Até posso ser mazinha, mas já não é a primeira vez que faço isto. Pago a uma dessas senhoras que lêem cartas de Tarot.

Apareço sempre com uma história inventada. Nada do que digo é verdade.
Ontem, voltei a repetir a experiência. O tema que levei à senhora foi, claro, o amor!

Pergunta dela: E tem alguém na sua vida?
E eu: Pois, é isso... tenho e não tenho... esse é que é o problema.
Ela: Não diga mais nada, vamos já ver isto.

Depois de todo o processo de tirar as cartas e tal... resultado:
Eu sou uma pessoa com muito amor para dar e tal. Tenho protecção. E há ali um empecilho. Está claro nas cartas. Uma mulher mais nova, que se faz de muito amiga (uma colega de trabalho, mesmo) e que me trai pelas costas. Portanto, é fundamental que eu ignore essas invejas que por aí andam e, claro que vou conseguir! Aliás, tirando mais duas cartas, a senhora disse-me logo: olhe que isto vai dar mesmo em união!!

Respirando fundo.
Lá saí eu da minha "consulta" de Tarot, um bocado preocupada, não escondo.
Imaginemos que, em vez de ser eu, aquela mensagem fosse passada para uma mulher que é absolutamente ingénua e acredita em tudo o que lhe dizem.
Saía dali uma mulher a olhar à sua volta, no trabalho, a ver quem seria essa mulher mais nova que é o tal "empecilho", cheia de inveja e tal. Implicaria certamente um desgaste emocional enorme, em busca de traições e invejas, onde nem sequer as há! É preocupante! Criar um drama onde ele nem sequer existe.

Também não escondo que me ri um bocado com aquilo tudo.
Nada do que eu disse à senhora é verdade. Deveria eu, no final, tê-la desmascarado?
Perguntar-lhe, se é realmente boa leitora de tarot, devia ter visto aí algo que batesse certo com a minha vida real. Independentemente da minha mentira, se a leitora de Tarot fosse realmente alguém com o mínimo de intuição, aperceber-se-ia da minha patranha.

Ou isso, ou então as cartas não funcionam mesmo!!
Por acaso, sei que funcionam, mas não com pessoas assim.
Isto é como tudo, há bons profissionais e maus profissionais em tudo.
É pena, porque assim se desacredita facilmente uma actividade que se baseia na intuição. Ou se tem, ou não se tem. E não pode ser qualquer pessoa a "ler" cartas. Simplesmente, não pode.

Vou continuar a fazer estas minhas experiências. Até que venha alguém que me apanhe, em flagrante delito, a mentir descaradamente acerca da minha vida pessoal.
Se um dia estiverem com disposição para isso, experimentem. Aguentem a mentira, com ar ingénuo, inventem coisas da vossa vida pessoal. É tão ridículo o que ouvimos, até que apareça mesmo alguém com intuição para nos "apanhar".

Até agora, nenhuma delas me apanhou.

segunda-feira, outubro 18, 2010

Homens à parte!

Acho muito bem que todos façamos algum exercício, desde caminhar, correr à beira da praia, dar uns bons passeios de bicicleta, levar o cão a passear, ir com as crianças para o parque, enfim, tudo isso e mais o que cada um de nós quiser.

Mas isto? O que é?




Apanhei este anúncio numa revista qualquer, não interessa. Tirei a parte com o preço, que também não interessa para o caso.
Do que eu gostei mesmo foi daquele cor-de-rosa cá em baixo "Sem homens"! Lindo, não é? Sem homens e sem complexos!

Ora, significa isto que no universo feminino- todo ele elaborado e complexo - a presença de homens num ginásio provoca mais complexos? Porquê? Sejamos nós magras ou gordas, belas ou feias, que importa que haja homens num ginásio?

Bom, pessoalmente não entendo esta forma de pensar. Até porque - que me desculpem as mulheres que não pensam como eu - que tipo de experiência é ir a um determinado sítio, onde não entram homens? Para quê, qual é o objectivo?

Devo ser um bicho raro, como mulher, mas eu acho que um mundo só de mulheres é a coisa mais desinteressante que há.

Afinal, quando vamos ao ginásio, estamos a reparar nos homens que lá estão? Nas outras mulheres que por lá pairam? Eu não! Quero lá saber dos tipos musculados dos ginásios e das mulheres todas giraças que por lá andam.

O que eu quero é fazer exercício, preocupo-me comigo e com o meu corpo. O resto é absolutamente secundário, quem lá está ou deixa de estar.

Fazer publicidade a um ginásio em que não importa mesmo o que lá é feito, que técnicas são usadas para o nosso bem estar físico. O que importa é o que está bem salientado a cor-de rosa: sem homens...

Não me interessa, sinceramente e acho uma chatice que se comece a ter este tipo de comportamento social. Enfim... vou dar uma volta, para arejar a minha cabeça feminina, lá fora, com pessoas, homens e mulheres - de preferência.